Quando José Estevão e seu companheiros se lançaram na aventura de fundar o Asilo, partiram praticamente do nada. Não tinham instalações, não tinham dinheiro, não tinham pessoal, nem experiência. Tinham apenas um objectivo, demonstrar que a assistência não tinha fatalmente de estar nas mãos das irmãs da caridade. Faziam parte de um grupo social, a Maçonaria, e contavam com a solidariedade do povo português
A sobrevivência do Intemato S. João ao longo destes 125 anos é realmente uma demonstração de solidariedade humana.
Os primeiros estatutos diziam no seu artigo 36. que o número de crianças asiladas não poderia exceder as vinte, enquanto o Asilo não possuísse o capital de 40 contos de reis em fundos públicos, acrescentando o parágrafo único deste artigo que por cada dois contos de reis em fundos públicos que por compra ou donativo entrassem no Asilo, seria admitida mais uma criança.
As 20 crianças mantiveram-se até 1896, data em que subiram para 24, passando depois o seu número para 26 em 1900. Em 1910 as educandas já eram 35, passaram a 50 em 1922, a 60 em 1942, para atingirem o seu número mais elevado (76) em 1958. Depois o número foi diminuindo progressivamente, sendo 50 em 1972, e atingindo o número mais baixo (17) em 1982. Actualmente o Internato fixou em 25 o número de educandas, mantendo nesta base um contrato com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
Naturalmente que numa instituição deste género, as despesas tendem a agigantar-se relativamente às receitas. Foi sempre grande preocupação das direcções procurar o equilíbrio financeiro sem depender do Estado.
Em 1865 as contas fecharam com uma receita total de 2,8 contos e uma despesa de 2,9 contos. Em 1987 as despesas e as receitas equilibraram-se na casa dos 12.000 contos anuais.
Analisemos agora sucintamente a proveniência das receitas e das despesas.
As recitas provêm da quotização dos sócios, de donativos e legados, da realização de festas e espectáculos públicos, de subsídios do Estado, de juros de títulos e rendas de prédios.
No capítulo dedicado aos sócios referimo-nos às suas diferentes espécies e à ‘evolução do seu número. A quotização dos sócios é importante, mas sempre insuficiente e incerta. Com o tempo, o valor da quota vai-se desactualizando. Em 1969, o Grande Oriente Lusitano passou a contribuir com uma mensalidade de 6.000 reis, assumindo os encargos para com o Asilo que eram suportados pelo Grande Oriente Português. Por essa altura, a regente do Asilo auferia um vencimento de 9.000 reis, e até à sua extinção em 1935 pagou sempre uma quota para o Asilo de S. João. A partir de Setembro de 1927 essa quota era de 300$00 por mês. A regente do Asilo ganhava 250$00. Também em 1909 o Grande Oriente Espanhol passou a subscrever uma quota para o Asilo de S. João.
Os donativos e legados é que constituíram a principal fonte de financiamento da instituição, estando na base do seu actual patrimonio, em títulos e em prédios de rendimento. Nos relatórios e contas anuais figura sempre uma relação dos donativos e legados recebidos. Fazemos aqui referência apenas a alguns a título de curiosidade.
Em primeiro lugar, as lojas maçônicas, Não contribuiam todas igualmente, mas a maioria, sobretudo as de Lisboa e algumas do estrangeiro faziam importantes donativos. A Loja Obreiros do Trabalho, por exemplo, por ocasião da festa de aniversário do Asilo efectuado no S. João de 1890 ofereceu um serviço de louça que ainda hoje ali se pode admirar. Nos relatórios de 1873 a 1877 há refcrência a donativos dados pelas Lojas espanholas Hijos de Hiram de Cadiz e Caridade e Fraternidade de Málaga. A Loja Cosmos de New Bedford foi considerada sócia benemérita do Asilo em 1921, assim como a Loja Liberdade, cujo elemento Luís de Melo e Ataide, ex-director, ofereceu títulos ao Asilo, instituindo o Prémio Gazul dos Santos. A Loja O Futuro, a que pertenceu Afonso Costa, enviava regularmente uma importância, com a qual se instituiu o Prémio 20 de Abril, dado à melhor aluna, em comemoração da data de publicação da Lei de Separação da Igreja do Estado. No relatório de 1910/11 refere-se que as instituições maçónicas concorreram para o Asilo com a importância de 1.866$430.
Em segundo lugar, e a título individual, referimos o donativo de 35 títulos de 10$000 de Bernardino Machado (relatório de 1904/5), o donativo de José Rodrigues Testa no valor de 6.000$000 (relatório de 1908/9), o donativo de 1.000$000 do sócio José Maria do Espírito Santo Silva (relatório de 1912/3), o donativo de 127 volumes, e cedência de parte da sua propriedade na Parede, para as educandas terem recreio, de José Nunes da Mata (1925). Em 1939 constituiu-se um grupo de Amigos do Asilo de S. João, tendo à frente Alexandre Ferreira, José Mayer, Manuel do Rosário e Marcos Pereira Ramalheira que fizeram obras na sede no valor de 24.222$10, com fundos que angariaram. Em 1962 Humberto Nunes Deslisle, antigo director do Asilo, legou 500 acções da Companhia Hidro-Eléctrica do Alto Alentejo.
Era também o Asilo beneficiário de outro tipo de ajuda. O Coliseu dos Recreios, no tempo de Ricardo Covões e seu filho Américo Covões, oferecia sempre entrada gratuita para os espectáculos às educandas do Asilo. Muita imprensa publicava gratuitamente noticias respeitantes ao Asilo (Jornal do Comércio, Gazeta de Portugal, Diário Popular e Revolução de Setembro). A Nestlé chegou a ser proclamada sócia benemérita do Asilo, o mesmo acontecendo ao Banco Nacional Ultramarino e à Câmara Municipal de Benguela. A companhia dos Telefones concedia desconto.
Desde a sua fundação até aos inicios de 1960, o Asilo contou com muita solidariedade de pessoas ligadas ao mundo dos negócios e das artes. A própria Associação Comercial de Lisboa pagava uma quota para o Asilo.
A realização de espectáculos públicos no Teatro de S. Carlos, no Teatro de D. Maria II, no Casino, ou de festas (“kermesses”, como se chamavam) no Passeio Público, nos jardins do Asilo, etc., constituíam também fonte de receita, embora por vezes pouco significativa, já que à receita de bilheteira era necessário deduzir o pagamento das despesas. Estas receitas serviam para atenuar a suspensão ou a pequenez dos subsídios concedidos pelo Estado, ou a retirada de beneficios pelos governos, quando pretendiam endireitar as suas finanças.
Os juros de títulos constituíam uma receita certa, mas também se desvalorizava com a inflação. Por vezes o Estado onerava-os com impostos, criando novas dificuldades financeiras a estas instituições.
Chegou a encarar-se a hipótese, logo em 1868, de o Asilo admitir pensionistas a pagar, mas esta ideia foi posta de parte pela maioria dos membros da direcção de então. Com o decorrer do tempo, esta posição foi-se tornando menos rígida, passando as educandas a contribuir com alguma coisa, de acordo com as suas possibilidades.
O Asilo viveu sempre carente de meios financeiros para ocorrer às despesas que tinha de suportar.
A alimentação das crianças era uma das principais preocupações. Não só porque os géneros nunca estão baratos, acentuando-se a sua carestia em períodos de crise provocada pela guerra e outros cataclisinos, como porque ela tem por vezes de ser cuidada. O relatório de 1865 refere, por exemplo, que as crianças
“comer carne seis dias na semana, porque é alimento que a higiene aconselha que se dê as crianças atacadas de moléstias escrofulosas, como o estão aqui quase todas as que vieram para este Asilo em 1862”.
O “Diário Popular” referia em 20 de Junho de 1945 que o Asilo de S. João lutava com un déficit mensal de quatro mil escudos e que não tinha fruta para as educandas.
Seguem-se as despesas com o pessoal que trabalha no Asilo e com o ensino das crianças. A falta de verbas levou a que muitos programas de ensino traçados no papel não tivessem concretização, e a que o pessoal recrutado nem sempre fosse o mais adequado, quer em número, quer em qualidade.
O arranjo de verbas para obras de conservação e reparação das instalações representava sempre um quebra-cabeças.
Façamos agora uma breve referência à história do patrimonio actual da instituição, o qual, para além dos papéis de crédito, é constituído pelos seguintes prédios:
Prédio da Travessa do Loureiro, 1. 8, em Lisboa – (A história deste prédio, que é a sede do Internato S. João, já foi contada no capítulo referente à sede, para onde remetemos o leitor). .
Prédio da Rua dos Condes de Monsanto, n. 4, em Lisboa – (Foi deixado ao Asilo por Isabel Maria Romeiro, tendo o Asilo dele tomado posse en 1914, com um encargo de cinco pensões vitalícias, o que na altura trazia prejuízo para a instituição. Já que o que o prédio rendia não cobria estes encargos – relatórios de 1913/14 e 1915/16. Hoje, apesar de velho, e a necessitar de muitas reparações, constitui uma das principais fontes de receita, devido aos arrendamentos comerciais entretanto efectuados,
Prédio da Rua Teófilo Braga, n. 7, na Parede – Este prédio é fruto quase exclusivamente da solidariedade maçónica. Custou 6.624$223, tendo as lojas maçónicas contribuído com 5.493$343. O valor total despendido, incluindo a construção e o mobiliário, foi, porém de 7.306$958.
A sua história conta-se assim:
Em 1902 José Nunes da Mata oferece o terreno para nele se construir um sanatorio ou casa onde as educandas do Asilo venham passar a época balnear;
O Asilo aceita o terreno, autorizado por Portaria de 9 de Agosto de 1902, lavrando a escritura de cedência do terreno em 30 de Janeiro de 1903;
Começam os peditórios para a construção;
Chega-se a solicitar que o Real Pinhal de Leiria forneça a madeira, mas o pedido é indeferido;
– Faz-se o projecto do edificio, que a Câmara de Cascais aprova, não como sanatório, como lhe foi
proposto, mas como “casa de verão”;
– No dia 18 de Maio de 1905, “aniversário da conferência de paz e arbitragem”, é lançada a primeira
pedra, aliás, três pedras dispostas em triângulo, uma correspondente ao meio da fachada da frente e as outras duas aos cunhais da fachada posterior;
Começa-se a construir e vai-se até ao primeiro andar, Mas de 1906 a 1908 as obras param. A conclusão custa 4.800$000 e a receita total com destino às obras está em 3.663$090;
Em Setembro de 1910 a casa está pronta a habitar, tendo recebido as educandas que ali. permaneceram até 3 de Novembro;
– Em Consequência do Plano de Urbanização da Costa do Sol (1949), a Câmara de Cascais suprime a rua para a qual o edificio tinha a sua frente.
Prédio da Rua do Recolhimento, n. 10, em Lisboa – Prédio 4o quintal, deixado ao Asilo por falecimento de António Narciso Sousa de Andrade. O Asilo so tomou posse dele após a morte da usufrutuária Augusta do Espírito Santo Alberto. No quintal existia uma árvore “Schinus Molle L” que por despacho publicado no Diário do Governo N.166, II Série, de 12 de Julho de 1945 foi classificada de interesse público.
Prédio da Rua dos Remédios, n. 52, em Lisboa – Foi deixado ao Asilo em 1930 por uma antiga educanda de nome Cecilia Maria de Almeida e Assunção, também conhecida por Cecília de Almeida Galhardo Quadros, com foro pertencente à Casa de Cadaval, que dele veio a prescindir em 1978.
Prédio da Rua dos Castelinhos, n. 4, em Lisboa – Foi deixado em testamento por Francisco José Afonso, O Asilo entrou na sua posse em finais de 1945.